Por que a discussão “Blogueiros versus Jornalistas” ainda está presente entre nós?

Jay Rosen, em 04/03/11* (Tradução: Gabriela Leal)

Um post pré-conferência. Ideias em movimento. Essas notas são uma preparação para meu discurso na South by Southwest, em Austin, na semana que vem. E você pode me ajudar a tornar isso melhor.

Eu vou fazer uma apresentação no South by Southwest, em Austin, no Texas, este ano. O título da palestra é “Blogueiros vs. Jornalistas: uma questão psicológica”. (Se você estiver no festival SWX, venha: 12 de Março, às 15h30 no Sheraton). Minha colega Lisa Williamns, CEO do placeblogger.com, será a moderadora da mesa. Além disso, ela vai fazer a checagem dos bastidores e o manuseio do tech.


Aqui está a descrição, dentro do programa do SWX:

Escrevi meu ensaio “Blogueiros vs. Jornalistas acabou” em 2005. E deveria mesmo ter acabado. Afinal de contas, muitos jornalistas blogam alegremente, muitos blogueiros fazem jornalismo e todo mundo está tentando descobrir o que é sustentável na Internet. Mas há algo mais acontecendo, e eu acho que descobri uma parte do que pode ser: esses dois tipos presentes na Internet – blogueiros amadores e jornalistas profissionais são, na verdade, um ideal do “outro”. O grande motivo pelo qual eles continuam lutando com as mentiras uns dos outros está no nível da psicologia, não nas particularidades das disputas e das erupções que nós continuamos vendo online.

Esse relacionamento é necessariamente neurótico, por ambas as partes. Os blogueiros não conseguem abandonar a  Big Daddy media – a figura imponente da mídia mainstream – e, ainda assim, continuarem sendo blogueiros. Jornalistas profissionais, por sua vez, projetam seus medos de perder a autoridade na Internet sobre a imagem do blogueiro de pijama[1].

Essa é uma construção que parte deles mesmos e se trata de uma peça-chave em toda uma arquitetura de negação que vem se enfraquecendo nos últimos anos, mas ainda muito lentamente. A única maneira de finalmente matar o meme – blogueiros versus jornalistas – e avançar para um futuro brilhante para o jornalismo interativo é indo direto ao elemento psicológico dos seguintes fatores: a negação, a projeção, as neuroses, o narcisismo, a grandiosidade, a raiva, o medo de ser aniquilado, os monstros da identidade na redação e a fantasia de derrubar a mídia mainstream na blogosfera. Minha apresentação solo vai ser sobre isso: um conto sobre a Internet, contado através de tipos.

Agora há um claro risco em tentar fazer isso na South by Southwest: para muitas pessoas que vêm prestando atenção, especialmente no Digerati, a rixa “blogueiros versus jornalistas” é quase a definição de um tema já descartado. “Já não superamos isso, a essa altura?” Eu sei que é isso o que muitas pessoas vão pensar, porque foi isso o que eu mesmo pensei. Blogar é muito mais aceito hoje em dia. A maioria dos jornalistas é também blogueiro, então essa distinção está ficando estranha. Muitas redações estão tentando atrair blogueiros para suas redes locais. Blogar, em si, se tornou uma atividade superada pelas mídias sociais – assim alguns pensam.

Mas eu percebi outra coisa ao longo dos anos. O assunto pode estar desaparecendo, mas o conflito permanece. Isso é um indício, e minha intenção é justamente interpretar essa pista. Rituais entram em repetição por alguma razão. E é por isso que eu escolhi uma perspectiva psicológica. Minha apresentação parece ser somente sobre o tal meme desgastado: blogueiros versus jornalistas. Mas na verdade é a respeito da psicologia da profissão jornalística, revelando o que a Internet fez com ela.

Os blogueiros irritam e provocam os jornalistas para que eles deixem escapar o que eles pensam e temem quanto à Internet. Essa é uma das ideias que eu pretendo desenvolver. Outra: enfurecendo os jornalistas, os blogueiros se mantêm fora de um sistema do qual, na verdade, eles pertencem. Eles preservam uma certa inocência (o que acaba sendo um tipo de poder) na medida em que detectam todo o poder que há na Grande Mídia.

Quando falo “psicologia de uma profissão” eu quero falar de algo diferente dos indivíduos que trabalham com jornalismo, de quem eu não reivindico nenhum insight especial. Assim como a cultura das redações sobrevive às idas e vindas das pessoas que entram nelas e as deixam, a psicologia de uma tribo profissional é uma coisa própria/singular. Se não fosse esse caso, não haveria algo como “jornalismo por encomenda”[2], o que divide o julgamento de jornalistas sobre o que vale a pena cobrir. Mas claro que existe julgamento por encomenda também.

Aqui, então, tem um pouco de material que eu coletei. Estou procurando por algo mais e, de repente, até algo melhor. É por isso que eu estou postando isso dia 4 de março, oito dias antes do meu discurso. Você tem alguma coisa pra mim? Ponha nos comentários, por favor, com os links respectivos. Sugestões, conceitos de rua, ideias que eu deva incluir? Você sabe o que fazer. (Se eu usar seu material, é claro que eu vou te dar os créditos em Austin). Eu espero que esse post evolua de agora até a hora da apresentação.

Meu plano é desenvolver os meus pontos utilizando cuidadosamente slides com curadoria, apresentando citações que se correspondem com conceitos-chave, como esses:

1. Fantasias de ser substituído por um rival sem valor/indigno

Andrew Marr, ex-editor de política da BBC e agora apresentador do Andrew Marr Show:

Muitos blogueiros parecem ser socialmente inadequados, cheios de espinha, solteiros, meio decadentes, carecas, com nariz de couve-flor, em geral, homens jovens sentados no porão da casa de suas mães… gritando. Eles são pessoas muito raivosas! Ok – o país está cheio de pessoas raivosas. Muitos de nós somos pessoas raivosas em algumas situações. Alguns de nós são raivosos e bêbados. Mas o tão falado jornalista-cidadão é o reflexo dos devaneios das pessoas muito bêbadas tarde da noite. Isso é fantástico às vezes, mas não vai substituir o jornalismo.

2. A gente pratica o controle pelo impulso. “Eles” se deixam levar…

Jeremy Peters, repórter de mídia para o New York Times:

Um grupo de blogueiros e jornalistas negros de veículos como Essence and BET foi convidado para a Casa Branca na segunda-feira para meio dia de conversa com assessores do presidente sobre políticas. A Casa Branca providenciou aos jornalistas uma agenda que estabelecia as regras básicas: a primeira parte das instruções era para ficar no fundo, o que significava que eles podiam reportar qualquer informação que eles aprenderam, mas não podiam atribui-las a nenhum funcionário público específico; a segunda parte ficou inteiramente em off.

Mesmo assim, isso não impediu os blogueiros de escrever sobre o evento e, em um caso, inclusive, postaram um vídeo sobre o pronunciamento do presidente para o grupo. Alguns dos blogueiros que visitaram a Casa Branca na segunda-feira aparentemente se sentiram isentos das regras básicas.

Algumas citações que eu coletei:

3. “The Teet”, uma mulher de 25 anos, bolgueira e escritora em Columbus, Ohio:

“Eu acho que eu tenho uma obsessão e um ódio sobrenatural pelo editor do Dispatch. Tudo o que ele diz me faz querer jogar meu monitor pela janela. Não obstante, eu o abandonei no Google Reader. Eu sempre pulava para a frente da seção Insight aos domingos. Eu secretamente amava a dor que ele me causava. Eu não acho que é saudável para uma pessoa sentir tanto desprezo em relação a alguém que nunca viu na vida real.”

4. Coluna do Editor, Townsville Bulletin, Queensland, Austrália:

“O bom dos jornais é que, nos amando ou nos odiando, nós somos a voz do povo. Nós representamos a comunidade, suas visões, suas aspirações e suas esperanças. Nós defendemos as vitórias de North Queensland e lamentamos nossas perdas.

Blogueiros, por outro lado, não representam nada. Eles se queixam, criticam e reclamam do nosso papel na sociedade – enquanto eles não fazem nada além de satisfazer seus egos juvenis.”

5. Pitch aos anunciantes em potencial no Los Angeles Times:

Qual tipo de cobertura prêmios de entretenimento que você está procurando?

Escolha um:
1 – Rigorosa, histórias com profundidade, relatadas por jornalistas com anos de experiência.
2 – Sem confirnação, boatos incompletos, espalhados por blogueiros.

6. Joseph Mismas, blogueiro de política, Columbus, Ohio, fazendo referência ao editor do Columbus Dispatch, Bem Marrison:

Marrison escreve um post de 900 palavras no qual ele admite abertamente que odeia publicações com baixo número de leitores – um post que inclui talvez 100 palavras de novo material – e ele tem culhões para intitulá-lo de “Reportagens preguiçosas e tendenciosas me deixam enojado?”

Nota a Bem Marrison: se você quer fingir que você, como jornalista profissional, é de alguma forma melhor do que blogueiros políticos ou outros repórteres de jornal por se considerar menos tendencioso e menos preguiçoso, então, você deve tentar NÃO SER preguiçoso e tendencioso enquanto escreve seus discursos retóricos online para o mundo inteiro ver.

Você não percebe que esse é NOSSO dever?

7. Connie Schultz, colunista no Cleveland Plain Dealer:

Enquanto eu escrevo isso, apenas metade dos estados dos Estados Unidos tem agora pelo menos um repórter full-time em Washington, D.C. Nenhuma quantidade de blogagens aleatórias e vídeos amadores pode substituir o jornalismo que mantém um governo responsável perante seu povo. Se você é jornalista, você já sabe disso. Se você é o resto da América, é provável que você não faça ideia.

8. West Seattle Herald, num editorial sobre seu concorrente, West Seattle blog:

Jornalistas profissionais, não percam seu tempo

Jornalistas profissionais desenvolvem uma função muito valiosa numa sociedade democrática. Eles filtram a informação e, quando são bons, fornecem uma visão o mais imparcial possível. A tarefa é essa.

Em vez de 3 mil palavras sobre uma reunião do conselho da comunidade que foi transmitida via “live blogging”com atualizações a cada sete minutos, você sinceramente não preferiria 300 palavras que vão te dizer o que aconteceu e o que foi decidido?

9. Farhad Manjoo, jornalista e colunista da Slate:

Se todos os posts estão se transformando em artigos e todos os artigos estão se transformando em posts, você deve estar se perguntando qual dos modelos está saindo na frente. A questão é particularmente interessante levando em conta a iminência da morte do jornal impresso. Em algum lugar no futuro, com data a ser determinada, o New York Times vai parar de imprimir jornal. Do que a gente vai chamá-los, então? Será que as matérias no seu site vão ser “posts de blog”? Quando eu perguntei a Glenn Reynolds, da Instapundit’s, como ele definia o que era “blogar” ele respondeu que a coisa mais importante era “a ausência de uma voz institucional”. Qualquer que seja o software que ele usa, ele acrescentou: “eu não acho que o New York Times realmente vai se tornar um blog um dia, neste sentido”.

10. John Kass, colunista do Chicago Tribune:

Eu disse a você que o que o Chicago Tribune não é. Agora me deixe dizer o que ele é. É um monte de repórteres, fotógrafos e editores, analistas e designers, e outros que nos ajudam no trabalho. Nosso jornal não é apenas uma parte da Tribune Co., e o que os os patrões da empresa fazem é separado do que nós fazemos. Os repórteres do Chicago Tribune trabalham com dificuldade e, às vezes, sob condições perigosas. Eles não blogam do porão da mamãe, copiando e colando o que outras pessoas relataram e assinando o conteúdo com um nome fofinho na Internet.

Em vez isso, os repórteres do Chicago Tribune estão lá fora batendo em portas em bairros violentos tarde da noite, à procura de testemunhas de assassinatos. Ou eles estão nos necrotérios, conversando com os parentes dos mortos. Os repórteres do Tribune não são anônimos. Eles usam seus próprios nomes, os colocam no topo de suas matéria e são responsáveis por aquilo que escrevem.

11. JulieDiCaro, blogueiro do site Tribune Company’s Chicago Now, em resposta à John Kass:

O Tribune criou uma própria rede de blogueiros, povoada por escritores talentosos e trabalhadores. Claro, a maioria de nós teve um percurso um pouco mais tortuoso para o “novo jornalismo”, mas um monte de repórter “verdadeiro” também passou por isso. Ser ridicularizada pelos repórteres do Tribune sem motivo aparente provavelmente não é a melhor maneira de atrair novos blogueiros para a rede do Tribune. E, pra ser sincera, resmungar sobre blogueiros nos dias de hoje é o mesmo que gritar com as crianças do bairro para sair do seu gramado. Isso te faz parecer muito, muito velho.

12. Marc Ambinder, repórter da National Journal, na despedida de sua coluna online:

Jornalismo impresso bom de verdade é isento de ego. Com isso, eu não quero dizer que  quem escreve não dispõe de perspectiva alguma ou mesmo que quem escreve não o faz por uma certa perspectiva. O que eu quero dizer é que o escritor é capaz de deixar a matéria e o processo de reportagem se desenrolar sem que as inseguranças de um repórter ou preocupações paroquiais intervenham nesse processo. Blogar é um processo que envolve ego. Mesmo em matérias factuais, o formato em questão sempre exige que você se coloque na narrativa. Esperam que você não apenas tenha um ponto de vista (e o revele) como também que você tenha certeza de que é o ponto de vista correto. Não há nada de errado nisso…

13. Frédéric Filloux, ex-editor do Liberation in Paris e agora consultor de mídia e professor de Jornalismo na França:

O problema de hoje não é uma mídia contra outra, é o futuro do jornalismo – é encontrar a melhor forma possível de financiar a apuração e o processamento de uma informação independente, confiável e original. Isso, enfaticamente, não é a missão declarada da blogosfera. Nós todos concordamos: para qualquer um, a capacidade se alcançar uma audiência global sem intermediação é uma revolução emocionante. E, para o jornalismo à moda antiga, esse foi o chute no traseiro mais benéfico que já existiu. Dito isso, eu não compro a ilusão generalizada de que uma legião de blogueiros, tuiteiros compulsivos e um monte de gente no Facebook vá substituir o jornalismo tradicional.

Mais uma vez, essa não é a apresentação, mas sim meu método aberto de preparação. Eu fiz o mesmo ano passado e funcionou bem. Suas respostas serão muito bem-vindas.

* O post original você confere no Press Think.


[1] Expressão que se refere à figura da grande mídia, que “abarcaria” as demais mídias, protegendo-as.

[2] Expressão que ganhou destaque em 2004 nos Estados Unidos, quando um porta-voz oficial da cadeia televisiva CBS a utilizou para se referir pejorativamente aos blogueiros.  Os repórteres amadores em questão deflagraram uma polêmica que pôs em xeque a credibilidade emissora  durante a exibição do programa 60 Minutes. Leia mais.

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