Como o discurso de ódio amplia a viralidade do noticiário político no Facebook


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Há algum tempo tenho me interessado pela tema da viralidade de notícias políticas no Facebook. Tenho uma hipótese: a intensidade da viralidade das notícias políticas é proporcional ao tamanho do engajamento de ódio contra os atores políticos que elas retratam. Trocando em miúdos: o discurso de ódio é o motor da viralidade política. Cabe aqui inserir aspas no termo “discurso de ódio”, para qualificar tanto o sentido do “discurso” (porque nele há franqueza, há a verdade como denúncia do horror, mas há também falsificação e artificialidade do real), quanto o sentido do “de ódio” (porque a raiva também explicita crítica rasgada e eloquente da indignação da exploração da vida, mas também pode ser efeito do haterismo idealista e sua metralhadora cheia de mágoas).

O discurso de ódio, portanto, precisa ser cartografado, porque acumula modos de produção de verdade que normalizam os textos (e suas interpretações) no Facebook, em diferentes sentidos. E nele há padrões: são discursos que possuem “alvo” muito bem definido, são dividuais (buscam polarizar) e geram a atração, ao mesmo tempo, de haters e lovers.

Mas o que isso tem a ver com esse grafo aí? É o seguinte. Esse grafo mostra os canais mais populares no Facebook que noticiaram as delações da #Odebrecht na última semana. Foram 1438 posts, que obtiveram 1.386.749 likes diretamente nessas fanpages. São apenas os posts contendo, em seus títulos, os termos delação, delações, Odebrecht, delator, propina e caixa dois. Algum post sobre o caso ficou de fora em função desse filtro de busca. Nesse grafo, temos a presença de 671.538 perfis (sao os nós menores linkados aos círculos maiores). Há, em muito deles, a viralidade da raiva (contra certos, e não aos, políticos) reforçando um ativismo jornalístico, que chamo de ladismo noticioso, movido pela busca de likes de haters e lovers. Nesse sentido, há uma boa frente de pesquisa: analisar as características lexicais do “discurso de ódio” no interior do ladismo noticioso.

Se notarem no grafo, os veículos mais populares são aqueles que estão mais engajados em noticiar as delações a partir de um dos lado do FlaXFlu político. Isso é revelador pois as pessoas que curtem as postagens da área vermelha não são as mesmas que curtem as das áreas marrom e amarela. Os pontos de vistas políticos, mais à esquerda ou mais à direita, são traçados de acordo com a curtidas nos posts de um certo número de páginas. Se um usuário curte Revista Fórum e Vi o Mundo, ele faz com que essas duas páginas fiquem próximas no grafo, revelando que ambas possuem um modo ideológico parecido de empacotar a notícia. O mesmo ocorre se usuários dão like em Veja e Antagonista. A posição política dos meios é revelada, assim, por uma mega população, que, lida individualmente, na timeline de seus membros, denotar-se-ão postagens ladistas (isso é muito black mirror? Sim), deixando ainda mais firmes a dimensão ideológica de um simples like.

Essa minha hipótese, extraída deste e de outros grafos, lembra-me de um controvérsia aberta pelas jornadas de junho de 2013.

Desde lá, quando a distribuição online de notícias passou a ser também disputada por meios alternativos, sobretudo aqueles com audiência no Facebook, um discurso se levantou, reivindicando status de verdadeiro, a saber: o jornalismo não é ativismo. Por isso, leia-se: o produto jornalístico é definido pela multiplicidade de visões de mundo que o abrigam. Instalou-se ali uma confusão controversa. Porque o mídiativista, dizem as salas de redação, é marcado pela defesa de um ponto de vista de suas causas. E o jornalismo, ao contrário, recusa qualquer univocidade, pois sua narrativa passa pela multiplicidade de vozes, pela apreensão em ouvir os outros. De outro lado, o ativista reivindica narrar com a multidão, sendo ela própria uma multiplicidade de vozes que a prática empresarial jornalística evitaria ouvir, vendo o povão de longe, num caminho até de criminalização de fatos ligados à indignação popular, que não mais vê nas salas de redação o local privilegiado de difusão das questões populares. Essa cisão, mais tarde, quando atravessada pelo atual FlaxFlu político brasileiro, alcança uma síntese que o deturpa nos dois lados da controversa. Nas bolhas dos feeds do Facebook, o ativismo vira sinônimo de defesa irrestrita de um dos lados (vira povo). E o jornalismo, defesa elitista do status quo. Viram, ambos, “ladistas”.

Esse grafo reforça o ladismo noticioso. O que vemos nele? Que os mídia mais visíveis no feed são os que inserem nos enunciados de seus posts uma intensidade maior de ladismo. E esse ladismo carrega uma estrutura sintática oriunda da linguagem do discurso de ódio (lembrando: da sua tensão entre um discurso de indignação versus um discurso impulsivo de linchamento). E essa linguagem parece ser aquela capaz de fazer compartilhar mais rápido, tendo mais aderência ao desejo ladista também da audiência. E isso acaba por gerar um ciclo vicioso, por demandar mais enunciados ladistas do que aqueles que buscam lidar com as contradições do movimento da realidade (talvez residam aqui os chamados textões dos isentões), meios e audiências editoralizam a polarização, que ganham curtidas e compartilhamentos, tornando-se mais frequentes nos feeds dos usuários, e assim a roda é movida no Facebook.

Se vocês repararem no grafo, verão que os maiores nós são veículos predominantemente nativos da internet (ou mesmo do Facebook). Muitos deles apenas “reeditam” notícias originadas no “jornalismo acadêmico” (esse que reivindica uma multiplicidade de visões de mundo buscando moderação editorial). Contudo, com a migração dos likes para as “notícias ladistas”, o modo de titular e entregar o conteúdo, até desse jornalismo acadêmico, passou a funcionar no modus operandi caça like da audiência ladista. Entrarão ainda mais no ciclo das bolhas ideologicas, produzindo mais polarização.

Por isso que a maior dificuldade do mundo das fake news não está apenas em restringir a difusão de notícias de fontes consideradas “duvidosas”, mas estancar o ladismo que a polarização (comum na política) não cessa de multiplicar nas redes sociais.

A Situação é complexa mesmo. E meu objetivo é continuar a seguir esses rastros.

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Comentários

  • Murilo Bussab

    Fabio, o que significam as cores no grafo?