Monitoramento do #12M utilizando o Gephi


Uma das principais atividades do Labic para os próximos anos é o projeto Cartografar as controvérsias na Internet, desenvolvido no âmbito do Programa Nacional de Cooperação Acadêmica da Capes (Procad). Mas o que significa “cartografar as controvérsias”?

Primeiramente, significa pensar novas metodologias para a pesquisa em Internet, mais especificamente em mídias sociais, mas também significa constituir uma abordagem teórica que dê conta das questões colocadas pela comunicação em rede. Sendo um pouco mais objetivo, a ideia é propor formas de monitoramento que preservem a atenção ao conteúdo (o que os métodos tradicionais já fazem), mas também mostrem o desenho e a complexidade das redes que se formam de acordo com os debates emergentes, pensando, a partir disso, problemas relacionados à comunicação (e suas conexões interdisciplinares) e à cibercultura.

Vamos por partes, o projeto está começando e ainda temos muito o que avançar. De qualquer modo, já demos nossos primeiros passos e vale a pena mostrar na prática a nossa “primeira” (tecnicamente falando) cartografia.

O último sábado (12), foi marcado por uma ação global de ocupação das ruas para a reivindicação de novas formas de participação política. Tal ação é um desdobramento das manifestações iniciadas no ano passado, principalmente na Europa e nos EUA (há inclusive uma pesquisa de um dos membros do Labic sobre a #SpanishRevolution), com a reivindicação de uma “democracia real”, da formulação de um sistema político capaz de atender aos anseios dos 99%.

Aproveitando o acontecimento, usamos o software Gephi para monitorar a movimentação da rede em torno do tema, escolhemos especificamente olhar para os retweets pelo fato de acreditarmos que tais mensagens possuem um grande capital social, sendo capazes de mobilizar mais atenção. Para tanto, utilizamos o plugin Retweet Monitor desenvolvido para o Gephi e capturamos cerca de 6000 RTs relacionados ao #12M (uma das hashtags adotadas pelos manifestante, especialmente pelos espanhóis). A partir daí, organizamos a apresentação dos dados no grafo abaixo:

Alguns apontamentos para que o grafo possa ser lido: 1) cada nó é um perfil do Twitter (todos estão identificados); 2) o tamanho e a cor do nó dizem respeito às ligações do mesmo com outros pontos da rede, por exemplo, o nó preto é o que possui mais retweets e a escala do vermelho para o amarelo vai de um menor para um maior número de RTs; 3) a cor das linhas (ou arestas) refere-se à direção do RT (dado ou recebido), ou seja, as linhas pretas são dos RTs recebidos pelo nó preto; 4) outra questão é a posição dos nós na rede, os posicionados no centro possuem ligação (tuitaram ou foram retuitados) com um ou mais hubs da rede e/ou com outros nós também centralizados, assim, o centro é uma rede mais interconectada.

Dito isso, podemos perceber, pela quantidade de nós vermelhos presente no grafo, que a maior parte da rede retuitou pouco e recebeu poucos retweets. Por um lado, isso é um indício do nível de difusão da discussão no corpo social, por outro, poderíamos dizer que isso se deve ao fato de que a maior parte da rede é composta por perfis pouco conectados. Em parte isso faz sentido, o problema é que alguns desses nós que aparecem como hub tem menos seguidores do que alguns pontos vermelhos que aparecem na rede. Dois casos chamam a atenção: um é o “efezetaseis“, ele é um dos hubs amarelos desta rede, mas se se olharmos o perfil dele, há um pouco menos de 700 followers; um caso mais extremo é do “pacoesceptico“, que também aparece como um hub, mas tem 20 followers.

Dessa forma, notamos que, pelo menos no caso do #12M, há perfis que possuem muita relevância no acontecimento, mas não são necessariamente nós muito conectados e, por outro lado, ter muitas conexões (followers) às vezes é pouco significativo, dependendo da reputação adquirida por um perfil em um determinado tema e momento. Pode parecer meio óbvio, mas é importante demarcarmos isso, pois existe uma ideia de que um perfil com muitos seguidores tem mais valor do que outros nós, não que isso seja irrelevante, mas é relativo. A questão é que quando nós e hubs são pessoas, a situação ganha variáveis que uma análise puramente quantitativa não é capaz de notar.

Pra não deixar ninguém desesperado, a boa notícia é que os maiores nós do grafo são perfis com muitos followers. O nó preto, “agarzon“, é o perfil de um jovem deputado da esquerda espanhola e o maior nó amarelo, “GLlamazares“, é um membro importante do Partido Comunista Espanhol. Eles possuem 46mil e 76mil seguidores respectivamente. Agora, um dado interessante: o “GLlamazares” teve 177 retweets, enquanto o “pacoesceptico” (aquele dos 20 seguidores) teve 158 RTs.

Um problema do Retweete Monitor, ele não captura o conteúdo dos RTs, ou seja, para uma análise aprofundada, é preciso cruzar os dados dele com o de outra ferramenta ou vasculhar os perfis que chamam mais atenção para entender um pouco o contexto do grafo. De qualquer modo, o Gephi gera diversas estatísticas bastante úteis na compreensão da organização da rede e que ajuda a entender um pouco eventos como o #12M.

Por agora, são esses os apontamentos que fazemos, podemos ter deixado passar algumas coisas em branco. Quem quiser contribuir, sinta-se à vontade.

Ps: neste link pode-se acessar o grafo com uma melhor resolução para identificar todos os nós da rede.

Compartilhe

Comentários

  • O #12M nas redes sociais.
    Curiosamente, ao analisar a rede, vimos o seguinte:
    os processos de espalhamento e difusão de mobilizações políticas passam, necessariamente, por um atuação minúscula, menor. Assim, a política em rede é uma forteação de centenas pequenos grupos, mas, ao mesmo tempo, constitui seus próprios pop stars (hubs). O hub, em mobilizações políticas, não é algo dado. O hub não existe; é um sujeito também emergente. Um sujeito que acontece. Isso pode está a explicar o fato de vermos cada vez mais o aparecimento “políticos que acontecem”, ou seja, que são produzidos pelo trabalho da multidão em rede. Mas é um político de novo tipo: só existe como e na mobilização. Estamos no começo das análises, mas já dá pra ver que a visão do maketing de buscar “celebridades” nas redes sociais é um tanto quanto perigosa, afinal, há uma indagação curiosa: quem compra é influenciado mais pelo “tratorada de espalhamento dos nós minúsculos” ou pela força da difusão das celebridades das redes sociais (os hubs), mesmo sabendo que estes não têm uma capacidade de criar sozinhos (ou com seus fãs mais mobilizados) uma mobilização agressiva na rede?

  • Fantástico o trabalho.

  • Pingback: Summer news | Gephi()