Entre o salto e o silêncio: estudo analisa representações de Simone Biles e o discurso sobre saúde mental nas redes

14 de outubro de 2025

por Isadora Gonçalves Eleutério Dias Araújo


Análise de dados e discursos nas redes mostra como o caso Simone Biles redefiniu o heroísmo e a pauta da saúde mental no esporte.

Esporte, saúde mental e mídia se cruzam no Trabalho de Conclusão de Curso “Simone Biles e o impacto da desistência nas Olimpíadas de 2021: mídia, redes sociais e a pauta de saúde mental”, desenvolvido por Leonardo Lucas Gomes e orientado pelo professor Fábio Malini. Com o suporte técnico e metodológico do Laboratório de Internet e Ciência de Dados (Labic/UFES), o estudo analisou as diferentes narrativas sobre a decisão da ginasta Simone Biles de abandonar parte das competições nos Jogos Olímpicos de Tóquio. Partindo da teoria do enquadramento de Robert Entman e utilizando metodologias de análise de dados, o trabalho investigou como o episódio, motivado por questões de saúde mental da atleta, se transformou em um fenômeno midiático e discursivo no Facebook e no X (antigo Twitter).

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Foram coletadas publicações feitas entre 25 de julho e 8 de agosto de 2021, a partir dos dados obtidos, foram analisadas postagens e comentários, aplicando métodos de análise de redes e de discurso digital. As informações foram processadas no software Gephi, ferramenta que permitiu identificar padrões de interação e campos semânticos por meio de grafos e clusters temáticos.

Nas análises realizadas, os agrupamentos discursivos (clusters) gerados pelo Gephi foram nomeados conforme a identificação dos termos e sentidos predominantes nas postagens e nos comentários. A metodologia de nomeação, aplicada de forma padronizada nas duas plataformas, possibilitou uma leitura precisa das redes de sentido construídas em torno do episódio, evidenciando as nuances entre apoio, crítica e comparação presentes nas diferentes esferas digitais.

O grafo acima corresponde a rede de palavras das postagens do X e aplica a nomeação dos agrupamentos para facilitar a compreensão e análise

Entre os agrupamentos discursivos mais expressivos, destacam-se os eixos “coragem e saúde mental”, “fragilidade”, “redenção” e “patriotismo”, que sintetizam os principais sentidos atribuídos à atitude de Biles. Enquanto as publicações do primeiro eixo destacavam a coragem e o autocuidado da atleta, transformando sua desistência em símbolo de resistência e humanidade, o eixo “fragilidade” concentrava críticas, reforçando estereótipos de fraqueza e exigência de superação incondicional. 

A pesquisa identificou diferenças marcantes entre as plataformas analisadas. No X (Twitter), a circulação de hashtags e o formato opinativo favoreceram debates mais rápidos e polarizados, com ênfase na valorização do autocuidado e na defesa da atleta. Já no Facebook, as discussões apresentaram um tom mais moralizante, com comentários que refletiam divisões entre apoio e crítica, mostrando como cada rede opera lógicas próprias de engajamento e discurso.

No campo teórico, o estudo dialoga com autores como Erving Goffman, Raquel Recuero, Kátia Rubio, Vasconcelos e Zizi Papacharissi, que contribuem para compreender como a mídia esportiva e as redes sociais constroem representações simbólicas de atletas e reforçam mitologias de heroísmo, superação e espetáculo. A partir dessas referências, o trabalho evidencia como o discurso midiático opera enquadramentos capazes de transformar desempenhos esportivos em narrativas de identidade e emoção coletiva, projetando atletas como heróis ou vilões de acordo com os valores sociais em disputa.

Os resultados apontam que a mídia tradicional desempenhou papel decisivo na construção da imagem de Simone Biles como símbolo de coragem, destacando sua atitude como exemplo de autocuidado e força emocional. Nos comentários, contudo, o discurso revelou-se mais fragmentado e ambíguo, oscilando entre apoio, críticas e comparações com outros atletas. 

Fabio Malini, Leonardo Lucas, Gabriel Herkenhoff e Fabio Goveia após a defesa do trabalho de conclusão de curso “Simone Biles e o impacto da desistência nas Olimpíadas de 2021: mídia, redes sociais e a pauta de saúde mental”

A pesquisa se insere na trajetória do Labic, que vem desenvolvendo investigações que combinam teoria crítica, metodologia computacional e sensibilidade social para compreender o novo ecossistema comunicacional, em que veículos e usuários transformam cada episódio em um território discursivo híbrido entre mídia e público.

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